OBESIDADE ELÉTRICA: Uma metáfora para entender desbalanço entre oferta e demanda.

 Um programa de TV americano, exibido no Brasil sob o título de “Quilos Mortais”, relata a dificuldade de recuperar a saúde de obesos que desrespeitaram uma regra simples do metabolismo animal: Absorver mais oferta que a demanda gera obesidade. Alguns casos chegam a ter mais de 300 quilos acumulados em corpos não planejados para suportar 1/3 de uma tonelada. A grande questão é como chegaram a este ponto?


Alguns nutricionistas acreditam que a fome é um sentimento insuportável ao ser humano. Por esta teoria, a experiência de escassez de alimento na história da humanidade criou uma cultura de comer além do necessário, como um instinto de proteção contra períodos de sub-oferta de alimentos. Outros defendem que não nos alimentamos somente sob demanda, mas também atraídos pela beleza dos pratos e pelo prazer degustativo que eles nos provocam. Seja por qualquer das teorias acima que expliquemos o comportamento viciante da comida e suas consequências, o fato é que o desequilíbrio entre oferta e demanda tem consequências;

Aplicando ao setor elétrico brasileiro estas teorias da causa da obesidade humana, talvez possamos explicar de forma simples a obesidade elétrica que o Brasil vive no setor elétrico. Claramente hoje há mais oferta energética de eletricidade  do que a demanda. Considerando os períodos de escassez hídrica e os recorrentes riscos de apagão, racionamento  ou preços exorbitantes que vivemos entre 2001  e 2021, é fácil entender que os agentes do setor elétrico buscaram desenvolver políticas para garantir a oferta aos famintos consumidores de energia elétrica, bem essencial a vida moderna.  Incentivo a diversificação de fontes foi o grande ingrediente para evitar novamente o temível racionamento de 2001. Importante dizer que  esta diversificação de oferta teve que incentivar produtos mais palatáveis as preocupações da sociedade quanto a necessidade de usar fontes renováveis de energia. Assim como os requintados pratos que justificam o jargão “dá vontade de comer com os olhos” são em geral mais caros que o “arroz com feijão”, a energia de fonte renovável também tem seu custo a ser pago, dado sua complexidade de implantação, regime incontrolável de oferta, sazonalidade e outras limitações naturais. Para suprir a fome dos consumidores e seu desejo de sofisticação energética, os subsídios foram e são o caminho natural para garantir a expansão da oferta, dentro da mais nobre política ambiental de exploração energética.

É fato que superamos momentos críticos e garantimos energia para o crescimento e estabilidade da sociedade brasileira neste período, garantindo uma matriz energética limpa no país. Porém, viciados no prazeroso gosto doce dos subsídios perdemos a capacidade de dizer não a tudo que era ou é ofertado, independente da real necessidade e do custo para a sociedade.  Dificultamos as operações horárias para atendimento da demanda. A cozinha atual do ONS  precisa de Master Chef´s capazes de aceitar desafios malucos de troca de ingredientes com o fogão acesso e o cliente sentado a mesa para para o jantar (hora do jantar dos brasileiros é hora do terror no ONS).  Incentivos desregrados a produção distante do consumo exigiram e exigem novas rodovias(sistema de transmissão) capazes de transferir a oferta nos  em horários em o produtor dispõe do seu produto. Isto porque no nosso cardápio, a energia renovável é como comida orgânica fresca, tem prazo de validade curto e não pode perder-se na  mão do agricultor. A lógica desta conta  não é barata.

Mas a questão que precisa ser respondida aqui é: como lidar com esta obesidade elétrica? Na obesidade humana o recurso de cirurgia para redução do  estômago é uma estratégia utilizada para que o corpo não aceite a sobreoferta. No sistema elétrico ações radicais são mais difícieis de implantação por conta dos interesses envolvidos de toda a sociedade. Em ambos os casos a solução está na racionalidade. Para o obeso, em sendo o cérebro capaz de controlar os impulsos da boca, o equilíbrio seria atingido por dieta controlada e planejada. Para o setor elétrico, o planejamento energético e operacional do estado precisara assumir o protagonismo e o controle da oferta. O difícil será convencer os neurônios políticos a devolverem o planejamento da política energética para os neurônios técnicos .

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Vale do Paraná - Uma aula de Compromisso

Negligência & Risco Oculto