Negligência & Risco Oculto
Uma
definição interessante de negligência , que encontrei pesquisando na internet ,
foi: Negligência significa desatenção,
menosprezo, desdém. É o ato de depreciar, de não dar a algo o seu devido valor.
Para fixar
bem este conceito, a compreensão e enxergar
as consequências que a negligência pode
nos sujeitar, me permita contar uma história. Afinal, histórias são
instrumentos poderosos para entendimento e fixação de um conceito.
Certa vez um
garoto muito esperto, de aproximadamente 03 anos de idade, alerta seu pai sobre
um bicho que havia no banheiro. O pai, absorvido em conciliar os arcodes no seu
violão com a partitura da música “Tears in Heaven”, de Eric Clapton, responde
de pronto:
“-Tá bom Filho! Mata ele”.
“-Mas pai, eu já tentei, e ele não morre”.
O Pai, já irritado,
levanta-se reclamando da interrupção de um momento tão particular e prazeroso.
Ao entrar no cômodo onde estava a criança descobre que o bicho que o filho tentava matar era o
da foto abaixo.
Ao se deparar com esta imagem
o pai remete a memória a noticias que havia lido recentemente sobre as
consequências do ataque de escorpiões a crianças menores de 05 anos. Talvez não
seja do conhecimento geral, então vale a pena registrar. Na maioria dos casos a
picada deste “bicho” leva crianças a óbito. Se não leva a óbito, leva a
sequelas neurológicas irreversíveis.
Diante da evidente consequência trágica da sua negligência, o pai entra
em desespero. Clama a presença da mãe para ajudá-lo a enfrentar a situação, uma
vez que pesava sobre seus ombros tão
grande irresponsabilidade pela vida do próprio filho.
Esta história tem seu
contorno de tragédia ainda mais intensificado quando consideramos a música que
o pai tentava aprender . “Tears in
Heaven”, ou “Lágrimas no Céu” , que foi escrita por Eric Clapton após a morte
de seu filho, quando o mesmo tinha por volta de 04 anos, em um acidente
doméstico. O garoto despencou do 53º
andar do prédio em que estava em Nova York devido à negligência combinada da babá
e do serviço de manutenção do prédio.
Mas voltando a nossa história
original, por que um pai negligencia a segurança do próprio filho devido ao seu
engajamento em um passatempo (ou hobby)?
Uma explicação razoável para este comportamento indiferente do pai às
solicitações do filho vem da Neurociência. Ficamos
realizados quando obtemos sucesso em
metas de curto prazo e nosso cérebro libera a famosa Dopamina, conhecida como a
“mediadora do prazer”. Por estar ligada
a sentimentos como amor e paixão, influencia na verdade, na motivação e na
relação de custo-benefício das nossas atividades do dia-a-dia. Devido aos efeitos desta substância, é tão difícil a esposas tirarem seus maridos da hipnose quando estão assistindo uma partida de
futebol do time do coração. Ou, devido a aos prazeres deste hormônio natural,
os fanáticos por vídeo game passam horas como zumbis diante de um computador,
renovando sua concentração em busca da vitória.
A necessidade Dopamina
explica, mas não justifica a negligência de deixar em perigo a si mesmo, ou pessoas sob nosso cuidados, em favor de
prazeres passageiros. Certamente os
prazeres passageiros da Dopamina não compensam o sofrimento de uma tragédia produzida pela negligência.
Exemplificando: A pressa para fechar um negócio e o sentimento de realização
que isto pode trazer, não justifica o excesso de velocidade ou o desrespeito as
regras de trânsito. A necessidade de reconhecimento pelo superior hierárquico
não justifica passar por cima de regras e regulamentos para “ganhar tempo”, correndo risco de gastar o
“tempo futuro” em remorso e arrependimento.
Penso que é normal neste
momento que o leitor discordante dos meus argumentos questione: Qual a sua
autoridade para tratar de negligência? Bem eu sou pai que ficou irritado com o
filho que pedia ajuda para enfrentar um escorpião dentro de casa. Eu sou o pai
que continua tocando e cantando muito mal “Tears em Heaven”. Eu sou o pai que ,
quando ouve “Tears in Heaven” , agradece a Deus por esta música não ser a sua
realidade, como é para Eric Clapton. Meu
filho não foi picado pelo escorpião. Embora tivesse tentado matar o pequeno
animal pisando no mesmo, ele ainda cresce a cada dia sendo a alegria da minha
família. Em suma, eu sou o pai que aprendeu o quanto é perigosa é a negligência
para minha vida e dos que de mim dependem.
Este episódio marcou minha
vida e mudou minha consciência desde o ocorrido. Tornou-se
muito mais difícil negligenciar as preocupações
dos que estão sob minha orientação e cuidado quanto aos riscos e perigos
que estes estão sujeitos. Compartilhar esta experiência é a forma que encontrei
para convencer o leitor sobre a necessidade de estarmos alertas para que
prazeres momentâneos não tragam a negligência para o centro do gerenciamento de
nossas ações e reações.
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