Biomassa de cana: Esta luz não ilumina mais o túnel?
Em 2001, em pleno racionamento de energia, o Brasil resolveu aproveitar melhor uma fonte energética esquecida, porém não desconhecida, para suprir a fragilidade de fornecimento que atingimos com a falta de água nos reservatórios das hidrelétricas brasileiras. O aproveitamento da bioeletricidade obtida principalmente pela queima do bagaço de cana-de-açúcar apresentava-se uma alternativa altamente viável do ponto de vista técnico e econômica. A alternativas para reduzir o risco de apagão no curto prazo eram extremamente caras (termicas a óleo diesel) e danosas às pretensões dos protocolos ambientais para redução dos gases de efeito estufa. As políticas públicas (Proinfa, Energia Incentivada, Leilões do ACR) induziram o investimento que transformou o setor sucroalcooleiro em sucroenergético. Para se ter uma idéia a biomassa de cana-de-açúcar foi responsável por cerca de 80% dos 49.000 GWh gerados por fontes a a biomassa em 2017. Preços tentadores dos “Mwh’s” garantiam o investimento em novas plantas de biomassa planejadas para exploração do potencial do bagaço, que um dia já foi um resíduo indesejável para as usinas. Neste processo ficaram para trás, na fila dos investimentos, muitas usinas antigas, que não aproveitam ao máximo o potencial do bagaço porque foram concebidas em tempos em que o melhor negócio era ter baixa eficiência para queimar o resíduo. A crise financeira do setor sucroalcooleiro, que empurrou cerca de 25% das plantas de processamento em Recuperação Judicial ou processos similares, inibiu a expansão do setor sucroalcooleiro e engavetou muitos projetos, tanto de “retrofit” quanto de “greenfield”. Para tirar o resto de coragem dos investidores deste importante setor, nos últimos tempos surgiram novos concorrentes para a matriz eletro-energética que vem desafiando o bagaço nos leilões de energia nova.
Para entendermos melhor o que aconteceu no ambiente de disputa dos Leilões ACR, apresento abaixo uma tabela com alguns índices interessantes referentes aos vencedores dos produtos Eólica, Biomassa, PCH e Solar. O comparativo se resume apenas a fontes renováveis e de escala similar de potência. Não trouxe para comparação as UHE’s por conta da escala e as térmicas a gás por conta da escala e origem fóssil. Os valores referem-se a média dos resultados dos leilões de energia nova A-4 e A-6 promovidos pelo Ministério de Minas e Energia em 2018.
FONTE
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CAPEX R$/kW
Instalado
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CAPEX R$/Kw
GF
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Receita R$/Mwh
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Preço de Lance R$/Mwh
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Fator de Carga Estimado
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% venda da G.F.
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PCH
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6316,40
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11.140,81
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196,46
|
196,46
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60,83%
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87,05%
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BIOMASSA
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1770,96
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3846,77
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210,075
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188,01
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40,88%
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69,33%
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EÓLICA
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5082,61
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9882,03
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83,78
|
79,03
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51,55%
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60,84%
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SOLAR
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5310,62
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17811,88
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118,07
|
118,04
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29,82%
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95,01%
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Analisando a coluna “Preço de Lance R$/Mwh” do quadro acima fica fácil entender a preferência do estado por garantir maior fatia da demanda contratada dos leilões para a fonte eólica. Este valor indica o que será pago pelos consumidores da concessionária de distribuição que adquirir esta energia nos próximos anos. Garantir o menor preço para suprir o aumento da carga é uma responsabilidade social e econômica de qualquer governo. Mas a questão que assombra os concorrentes é: Como o vento se tornou referência para a competição? Se comparamos com o produto PCH, que tem investimento por Garantia Física Média (CAPEX R$/KW GF) da ordem de apenas 10% maior que a Eólica e custos operacionais semelhantes a questão se torna ainda mais desafiadora. O fator de carga ( relação entre a potência do empreendimento e a garantia física) da Eólica é cerca de 15% mais baixo, ou seja o aproveitamento do potencial dos empreendimento será menor. Talvez o “pulo do gato” dos empreendedores eólicos seja ter negociado apenas parte da Garantia Fisica disponível no leilão(60,84%), confiando que o histórico de preços da energia incentivada no ACL se repetirá no futuro. Se considerarmos que nos últimos 10 anos produtores de energia incentivada conseguiram preços da ordem de até R$ 250,00/MWh no ACL, podemos supor uma expectativa de faturamento da ordem de R$ 148,00/MWh na junção das vendas ACR+ACL. Outro fator que pode influenciar o apetite dos empreendedores é que o Brasil, e em especial o Nordeste, tem reescrito a literatura técnica sobre a produtividade deste tipo de geração. Os primeiros empreendimentos foram projetados para Fatores de carga de no máximo 40%. Projetos já chegam a considerar 60% de FC, e não é raro que o projeto implantado supere a expectativa dos projetistas. O sucesso tem sido tão grande que vários produtores já estão desenvolvendo módulos de geração que passarão de 3,0 para até 6,0MW em torres de inimagináveis 150 metros de altura,, o que certamente derrubará ainda mais o CAPEX da fonte. Outro vento favorável que podemos considerar é que o Brasil se tornou mercado muito atrativo para grandes fabricantes mundiais dos equipamentos aplicados e estes podem facilitar o acesso dos empreendedores a financiamentos com taxas que ajudam a redução do tempo para retorno do investimento.
Quando olhamos para os números da Biomassa chama a atenção o baixo investimento médio declarado pelos empreendedores vencedores dos certames. Isto ocorre porque nos dois leilões apenas 04 empreendimentos conseguiram êxito e a variabilidade de valores de CAPEX é muito grande. O mínimo valor informado foi de R$ 525,00/KwInstalado e o máximo de R$ 4.282,00/kWinstalado. Dois outros projetos têm valores menores que R$ 2.000,00/kWinstalado. Provavelmente apenas o projeto com valor máximo contempla todos os investimentos necessários em geração/distribuição termo-elétrica. É razoável acreditar que os empreendimentos com valores menores contemplam apenas equipamentos e instalações exclusivos a geração elétrica. Ou pode-se supor ainda que os empreendedores separam financeiramente nos investimentos a parcela referente a energia térmica que é aproveitada pela produção sucro-alcooleira destacando estes valores da produção elétrica. Neste entendimento, que não é comum no setor, reduz sobre a comercialização de energia o ônus de investimento total em caldeiras e outros acessórios necessários para adequação das plantas, principalmente em caso de “retrofit’s”. Os resultados conforme declarados, levam a conclusão de que os empreendedores que negociaram energia da fonte Biomassa nestes leilões tiveram melhor desempenho de preços que os empreendedores de PCH’s. Com CAPEX muito inferior, obtiveram receitas parecidas, o que remunera de forma interessante seus investimentos, mesmo considerando que no caso da Biomassa há maiores custos operacionais envolvidos. Como já mencionado, a média dos resultados da Biomassa não é um bom guia de análise para o desempenho desta fonte frente as demais. Mas, mesmo se considerarmos a UTE a Biomassa mais “cara” (ALCON - CIA DE ÁLCOOL CONCEIÇÃO DA BARRA- Leilão A-4 ) notamos que haveria competitividade do preço de lance contra as PCH’s no mesmo leilão (R$ 198,96 x R$197,89). Isto nos leva a um questionamento aos organizadores dos leilões: Se ambas as fontes são renováveis e competem em termos de custo ao consumidor regulado, por que a quantidade de lotes demandados da fonte PCH foi o dobro da quantidade da Biomassa (6,60 % x 3,15%)? Por que colocar no leilão A-6 a Biomassa para competir com empreendimentos a Gás que não são renováveis e que restringiram ainda mais a demanda contratável, devido ao a escala dos projetos?
Chama muito a atenção a fonte Solar. Sem dúvida esta fonte causou o maior espanto entre os participantes do leilão A-4. Os valores de CAPEX declarados exprimem uma falta de competitividade que não se viu na prática. Participaram apenas do leilão A-4 e abocanharam cerca de 50% dos lotes contratados a preços realmente interessantes, do ponto de vista de quem compra. Já na rodada discricionária, onde todas as fonte disputam “um lugar ao sol” no sistema de transmissão, conseguiram empurrar para fora do jogo muitos concorrentes a assumiram um protagonismo curioso. Tomando novamente com as PCH’s para comparação, é fácil de notar e difícil de entender como empreendimentos que tem CAPEX/Garantia Física 80% superior e fator de carga que beira a metade, conseguem vender energia com uma remuneração 40% menor e ainda comprometendo 95% da Garantia Física. Ou seja, na média os empreendedores contam basicamente com a receita do leilão para viabilizar o projeto. Chama mais atenção pelo fato que, na geração distribuída, projetos de energia solar tem dificuldade de serem viabilizados somente pela tarifa de energia e contam com o beneplácito do desconto dos encargos e impostos. Obviamente que há um ganho de escala nos projetos de leilão, mas seria este suficiente para justificar tamanha disparidade da relação custo x benefício quando comparamos SolarxPCH? Por suposição, e nada além disto, imagino que os empreendedores desta fonte estão bem lastreados por investidores que bancam parte do custo financeiro desta operação e pela esperança de que a os projetos terão produtividade acima do esperado, assim como tem sido com a fonte eólica desde que se começou erguer torres com hélices em território nacional .
O cenário dos últimos dois leilões justificam a afirmativa do Gerente de Energia da Unica, Zilmar de Souza, de que “serão necessários 120 anos para o Brasil aproveitar o potencial de geração de eletricidade da cana-de-açúcar”. Como pode a Bioeletricidade retomar seu protagonismo nas fontes renováveis? Não tenho a solução em um toque de mágica. Mas algumas idéias precisam ser consideradas.
Primeiro é preciso melhorar a produtividade das plantas industriais. A parada de entressafra prejudica o fator de carga dos projetos. São meses com todo o parque de geração de vapor e energia sob manutenção e hibernação. A questão técnica para resolver este problema é a indisponibilidade do combustível. A solução mais óbvia seria o investimento na redução do consumo de combustível em safra, o que gera estoques para operação em entre-safra. Mas o óbvio normalmente exige mais investimentos na planta. É preciso buscar alternativas, e de preferência com baixo investimento e custo. Já há unidades testando a queima de capim junto com o bagaço para aumentar o volume de combustível. Outras investem em florestas de eucalipto para ter a disposição mais biomassa. Sem falar das que já recolhem palha com esta finalidade. A depender do local de instalação da planta podem haver possibilidades de baixo custo passando despercebidas.
Em segundo lugar, é preciso buscar alternativas de financiamento. Aguardar novo tratamento maternal do BNDES é, no momento, perda de tempo. Financiamentos com taxas de juros menores que a SELIC são, no momento, coisa do passado. Explorar soluções como Debêntures Incentivadas poderia ser um caminho. É fato que em tempos que muitos lutam para sobreviver, o apetite por investimento dos acionistas se encontra amordaçado pelo medo da incerteza, o que é natural. Mas é preciso lembrar que em algum momento a necessidade de reformas econômicas irão se impor a realidade política brasileira, o que certamente elevará o consumo de bens e serviços e a energia elétrica voltará a ser demandada no devido atrelamento do crescimento econômico-social. Podemos ter incerteza de quando será, mas já é senso comum de que acontecerá.
Em terceiro, seria interessante considerar que a receita do mercado livre tem se mostrado muito mais atraente do que no mercado regulado. Certamente os próximos leilões não tendem a preços mais atrativos para os empreendedores devido a alta competição do excesso ofertantes que buscam a segurança econômica de contratos de comercialização de 20 a 25 anos. Uma estratégia de participação nos próximos leilões com uma parte dos lotes seria uma idéia a ser considerada pelos empreendedores.
Em quarto lugar é preciso uma ação institucional para convencer os promotores dos leilões que uma fatia de carga para a Biomassa similar a PCHS não prejudica o objetivo de beneficiar os consumidores pelo menor preço. Também é um pleito razoável que a biomassa não dispute diretamente com uma fonte de origem fóssil, como é o Gás Natural, a fim de preservar os estímulos a fontes renováveis.
Respondendo a pergunta do título deste artigo, a Biomassa da cana ainda ilumina parte considerável do túnel do abastecimento elétrico brasileiro. Mesmo com a inadimplência no Mercado de Curto-Prazo o setor não tem se eximido de gerar acima da Garantia Física, ajudando a reduzir o despacho térmico nos recentes períodos secos de inverno. Não preciso aqui realçar o carácter complementar da Bioeletricidade da cana tem com a baixas afluências dos rios dos sistemas de geração hidroelétrico. Mas temos que considerar que o túnel está crescendo lentamente e todos torcemos pela aceleração deste crescimento. A Biomassa da cana e de outras fontes ainda tem muito potencial a contribuir para não deixar o acréscimo que virá no escuro. Seus investimentos geram empregos em toda uma cadeia de equipamentos que é projetada e fabricada no Brasil. Ou seja, esta é uma das poucas fontes cujo investimento em sua totalidade remunera salários internamente. Mas o setor precisa se movimentar na arena técnica, financeira, comercial e política para não perder sua relevância para a matriz eletroenergética brasileira.
Wilson de Castro e Souza Jr.
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